Refino: por que o Brasil produz muito petróleo e ainda importa diesel

Explica por que produção elevada de petróleo não elimina importações de diesel: limites de refino, composição do óleo e investimentos.

Publicado em · Atualizado em

O Brasil hoje extrai petróleo em escala continental e, ainda assim, continua a comprar volume significativo de diesel no exterior. Essa aparente contradição não é falha de contabilidade: decorre de decisões técnicas, industriais e de investimento tomadas ao longo de décadas.

A produção média anual de petróleo atingiu 3,402 milhões de barris por dia em 2023, mas o país segue importando parcela relevante do diesel que consome — a participação das importações nas vendas mensais de diesel variou, por exemplo, de 40% em dezembro de 2023 para 23% em dezembro de 2024, segundo dados da ANP.

Entenda o contexto

Extrair petróleo e refinar derivados são capacidades diferentes. A extração mede quantos barris são trazidos do poço para a superfície; o refino mede quanto desse óleo o parque nacional consegue processar e que mistura de produtos (gasolina, diesel, asfalto etc.) sai por barril processado. A composição do petróleo (grau API, teor de enxofre) e a configuração tecnológica das refinarias determinam quanto diesel “rende” de cada barril processado — refinarias simples produzem menos fração diesel do que refinarias com unidades de craqueamento e hidrotratamento.

Esse arranjo técnico explica por que aumentar a produção de óleo não corta automaticamente importações de diesel: é preciso que o óleo produzido seja compatível com a configuração das refinarias ou que as refinarias sejam modernizadas/expandidas para transformar esse óleo em mais diesel.

Os dados

Produção e capacidade: a ANP registrou produção média anual de petróleo de 3,402 milhões de barris por dia em 2023 e 3,358 milhões de barris por dia em 2024; o parque de refino instalado no Brasil vinha reportado, em levantamentos oficiais, com capacidade de processamento próxima a 2,4 milhões de barris por dia (estoque de refinarias e capacidades declaradas pelo setor).

Importações de diesel: a ANP publica mensalmente os volumes e a participação das importações nas vendas. Exemplo apontado pela própria agência: parcela importada de diesel A foi de 40% das vendas em dezembro de 2023 e 23% em dezembro de 2024 — variações que refletem logística, preços internacionais e dinâmica do parque de refino doméstico.

Planejado x entregue (investimento, capacidade e prazos): o Tribunal de Contas da União (TCU) auditou os grandes projetos de refino — entre eles a Refinaria Abreu e Lima (RNEST), o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro / Comperj e os projetos Premium I e II — e documentou fortes discrepâncias entre orçamentos iniciais, aditivos e desembolsos, além de atrasos e falhas de projeto básico.

  • RNEST (Refinaria Abreu e Lima): estimativa inicial de investimento divulgada no início do projeto foi muito menor que os saldos apurados ao longo da execução; em comunicados do TCU e relatórios correlatos constam passagens que comparam valores iniciais (por exemplo R$ 2,3 bilhões em referência antiga) e cifras muito superiores na execução (variações e estimativas em dezenas de bilhões de reais ou equivalentes em dólares conforme período e método de conversão). O TCU transformou partes do processo em tomada de contas especial e apontou indícios de sobrepreço em contratos específicos.
  • Comperj: o planejamento inicial e as alternativas de escopo chegaram a estimativas públicas na ordem de dezenas de bilhões de dólares (US$ 36,6 bilhões citados como referência inicial em comunicados), e o próprio TCU calculou vários cenários de dano e gestão temerária, com estimativas de prejuízo que variaram conforme metodologia (valores citados pelo TCU e pela imprensa chegaram a ordens de US$ 9,5 bi a US$ 12,5 bi, dependendo da delimitação do escopo).
  • Planos da Petrobras: nos Planos de Negócios e Gestão/Planos Estratégicos houve mudança de ênfase entre exploração & produção (E&P) e refino: os PNG 2019‑2023 reservaram parcela pequena do total de investimentos para refino (ordem de 8–10% do total do PNG 2019‑2023), enquanto o PNG/PE 2024‑2028 prevê resgate do segmento de refino com pacote estimado para RTC (Refino, Transporte e Comercialização) e objetivo declarado de aumentar a capacidade de processamento em ~225 mil barris por dia até 2029, via revamps e conclusão de projetos como o Trem 2 da RNEST.
  • Metodologias e números TCU: as decisões do TCU (por exemplo Acórdão 3052/2016 sobre a RNEST e Acórdão 2546/2017 sobre o Comperj) descrevem causas técnicas e de gestão (projeto básico deficiente, aditivos contratuais elevados, fiscalização inadequada) e apresentam valores/estimativas com datas e métodos próprios; as cifras variam conforme a base (valores históricos, conversão cambial, escopo considerado).

Três termos que o debate mistura e que são distintos: (1) orçamento inicial subestimado — refere‑se a estimativa técnica e financeira colocada no projeto; (2) sobrepreço em contrato — é a diferença entre preço de mercado e preço contratado, identificada por auditoria técnica; (3) superfaturamento comprovado — é a imputação de dano ou débito quando há prova cabal de prejuízo ao erário ou condenação. O TCU diferencia esses conceitos nas decisões e demonstra que ampliação de escopo ou aditivos nem sempre equivalem, metodologicamente, a superfaturamento comprovado.

Resumo numérico de entregas e anúncios relevantes: produção de petróleo (3,402 MM b/d em 2023; 3,358 MM b/d em 2024 — ANP); capacidade instalada de refino ~2,4 MM b/d (ANP/anuário setorial); planos anunciados da Petrobras para 2024‑2028 com aumento previsto de 225 mil b/d de capacidade de processamento e CAPEX do segmento Refino, Transporte e Comercialização estimado em cerca de US$ 17 bilhões para o quinquênio (valores e horizontes divulgados pela própria Petrobras).

Comparação histórica dos indicadores desta análise produção média anual de petróleo (Brasil): 3,402 milhões bpd em 2023 e 3,358 milhões bpd em 2024 (queda). parcela importada de diesel nas vendas mensais: 40% em dezembro de 2023 e 23% em dezembro de 2024 (queda). Os outros 2 indicadores estão na tabela abaixo. produção média anual de petróleo (Brasil) produção média anual de petróleo (Brasil) antes: 3,402 milhões bpd agora: 3,358 milhões bpd parcela importada de diesel nas vendas mensais parcela importada de diesel nas vendas mensais antes: 40% agora: 23%
Cada indicador é comparado consigo mesmo; as barras não comparam indicadores entre si. Os outros 2 indicadores estão na tabela abaixo. Ver os mesmos dados em tabela.

O que muda para você

Dependência de derivados importa porque o preço do diesel incide de modo quase imediato no custo do frete e, daí, no preço dos alimentos e bens que vêm por estrada. Quem dirige caminhão, empresas de transporte rodoviário e entregadores sente a alta do combustível já no próximo abastecimento; quem compra alimentos no mercado percebe o efeito com defasagem (semanas a poucos meses), à medida que aumentos de frete são repassados ao preço final.

Grupos concretos: (a) caminhoneiros e frotistas — impacto direto e imediato no custo operacional e na margem; (b) consumidores de baixa renda que compram alimentos no varejo — impacto indireto por repasses do frete ao preço dos alimentos; (c) empresas que contraiam crédito e pequenas indústrias — sensíveis a ciclos de preço do combustível que elevam custo de insumos e transporte.

Onde há lacunas: os dados públicos consolidados não trazem facilmente uma desagregação por renda do efeito do diesel no consumo de alimentos que permita afirmar quem é mais atingido em termos percentuais — essa é uma lacuna de dados que impede transformar o encarecimento do frete em um número preciso de aumento de preço de cesta básica por faixa de renda.

O que observar daqui para frente

Para julgar projetos de refino sem depender de narrativas partidárias, acompanhe indicadores técnicos e financeiros: custo por barril/dia de capacidade adicionada (US$/bpd), avanço físico x financeiro por contrato (percentual de execução física e desembolso), atraso acumulado em meses/anos e VPL/retorno econômico atualizado (valor presente líquido recalculado com parâmetros atuais). Esses são os instrumentos que o TCU e analistas usam para comparar o planejado com o entregue.

Fontes e próximos marcos: acompanhe as atualizações mensais da ANP sobre produção e importações, os relatórios e planos anuais da Petrobras (Plano de Negócios/Plano Estratégico) e as decisões e relatórios do TCU sobre os empreendimentos auditados (por exemplo Acórdãos sobre RNEST e Comperj) para verificar se os projetos mudam de escopo, cronograma ou previsão de custos.

Comparação histórica

Comparação histórica de cada indicador desta análise: valor atual, valor comparado, os períodos de referência e a fonte de cada número.
Indicador Valor atual Período atual Valor comparado Período comparado Fonte
produção média anual de petróleo (Brasil) 3,358 milhões bpd 2024 3,402 milhões bpd 2023 ver fonte
capacidade instalada de refino (parque nacional) ≈2,4 milhões bpd (capacidade declarada) referência 2019–2020 média histórica dos anos anteriores (manutenção próxima a 2,4 MM bpd) anos anteriores ver fonte
parcela importada de diesel nas vendas mensais 23% dezembro de 2024 40% dezembro de 2023 ver fonte
planejamento de aumento de capacidade (Petrobras PE/PNG) aumento previsto de 225 mil bpd (capacidade de processamento) para 2024‑2029 2024-2029 (horizonte do Plano Estratégico) capacidade entregue até 2024 (ver capacidade instalada acima) até 2024 ver fonte

Incertezas desta leitura

  • O TCU apresentou diferentes metodologias e cenários para quantificar dano em projetos (por isso aparecem intervalos de estimativa: US$ 9,5 bi a US$ 12,5 bi no caso do Comperj). Essas diferenças derivam de delimitação de escopo, data de corte para avaliação e critérios de conversão cambial; a existência de valores divergentes é documentada nas decisões do próprio TCU.
  • As projeções anunciadas pela Petrobras (por exemplo, acréscimo de 225 mil bpd) são alvo de revisão conforme execução orçamentária e decisões de portfólio; acompanhar execução (avanço físico x financeiro) e relatórios trimestrais da empresa é necessário para validar se o planejado será entregue.

Lacunas de dados

  • Não há, nas séries públicas consolidadas (ANP/Petrobras/TCU) uma matriz de impacto que permita calcular, por faixa de renda, o repasse do aumento do diesel para a cesta básica — essa desagregação renda x setor de consumo não é publicada de forma padronizada e impede afirmações quantitativas sobre desigualdade de impacto.
  • Comparações entre orçamentos iniciais e valores finais sofrem de heterogeneidade metodológica: uso de moedas diferentes, índices para conversão cambial, alteração de escopo e inclusão/exclusão de etapas (por exemplo, somente obras civis versus obras + equipamentos + comissionamento). Quando as fontes não usam a mesma base, as séries não são estritamente comparáveis.

Fontes